Enterro de Remís Carla é marcado por homenagens e revolta

Uma mulher doce, dona de um sorriso encantador, engajada em movimentos sociais e guerreira. As características de Remís foram ressaltadas por familiares e amigos no enterro da universitária. Com homenagens, lágrimas inconformadas e discursos de revolta, o sepultamento foi realizado na manhã deste domingo (24), no Cemitério Campo Santo São José, em Paulista, no Grande Recife. A universitária estava desaparecida desde o dia 17, mas a mãe, Ruzinete Costa, nutria esperança de que a filha fosse aparecer. “Não tenho palavras para esse momento. É de muita tristeza. Só fico feliz porque o acusado está preso. Vamos deixar agora a Justiça fazer o trabalho dela”, desabafou Ruzinete.
Os pais desconheciam detalhes do relacionamento de dois anos da filha, que, segundo amigos, era abusivo, marcado por rompimentos, reconciliações, ciúmes doentios, agressões verbais e físicas. Após o desaparecimento, a mãe teve acesso ao boletim de ocorrência registrado pela filha contra o namorado, no dia 23 de novembro. “Quando eu vi o relato, eu percebi que ele tinha tudo a ver com o caso”, detalhou. Durante a despedida, familiares e amigos criticaram o trabalho da polícia, que demorou quase uma semana para achar o corpo.
Abalada, a amiga Jéssica Alves, de 27 anos, acompanhou Remís à delegacia no dia da denúncia de agressão. De acordo com ela, Paulo a humilhava, tentava esganá-la, batia nela e quebrava suas coisas. “Hoje é dia de homenagens, mas queremos protestar contra a negligência da polícia no dia da denúncia e na própria investigação”, ressaltou Jéssica. “Eu acredito que, além do responsável direto, o Estado tem culpa. Ela pediu ajuda e foi destratada na polícia. Duvidaram e chegaram a perguntar se as manchas eram de caneta”, queixou-se Maria Bernardete, também integrante do Movimento Feminista Popular.
Na entrevista coletiva, o chefe da Polícia Civil, Joselito Kehrle, disse desconhecer esses fatos. Remís cursava o décimo período de pedagogia na Universidade Federal de Pernambuco. “Era uma al na dedicada. Esse caso nos deixa assustadas, porque nós mulheres podemos estar vivendo com um agressor em potencial”, pontuou a professora do curso Elizama Messias, docente da vítima. A instituição decretou três dias de luto. “É uma forma de prestar nossa indignação contra essa absurda violência a uma jovem estudante da universidade”, comentou o reitor Anísio Brasileiro.
No enterro, houve manifestações contra o machismo. Remís integrava movimentos sociais, como o Feminista Popular e o Estudantil Popular Revolucionário. O ativismo englobava questões agrárias, da mulher, educação e raça. “Ela era muito engajada na luta por uma educação transformadora. Ela dedicava a vida dela a dos outros”, frisou Maria Bernadete. Militantes e amigos prestaram homenagens com uma faixa com a frase “Remis Carla presente na luta” e entoaram gritos contra a impunidade. O corpo foi enterrado sob lágrimas e gritos de “Nenhuma mulher a menos! Machistas não passarão!” e “A luta continua!”.











Deixe seu comentário