“Brasil é o país que mais compartilha informações falsas sobre o Autismo na América Latina”, Por Ariele Lima

Pesquisa da FGV e Autistas Brasil identifica 60 milhões de conteúdos enganosos nas redes sociais; Brasil lidera disseminação de teorias sem base científica, como uso de dióxido de cloro e “terapias” com frequências eletromagnéticas

A desinformação sobre autismo se transformou em um mercado lucrativo na América Latina, impulsionado por grupos que prometem curas inexistentes para o transtorno. Um estudo inédito da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em parceria com a organização Autistas Brasil revela que, em apenas um ano, o volume de notícias falsas sobre o tema cresceu 635%, com mais de 60 milhões de conteúdos circulando em redes sociais – a maioria no aplicativo Telegram.

O Brasil responde por quase metade dessas publicações, liderando o ranking regional de disseminação.

Entre as falsas terapias mais difundidas estão protocolos perigosos, como o uso de dióxido de cloro, alegações de que redes 5G causam autismo e até tratamentos com “frequências eletromagnéticas”, vendidos como capazes de reprogramar o cérebro. A pesquisa catalogou 150 tipos diferentes de falsas causas e curas, todas sem respaldo científico.

Um mercado de negacionismo científico e curandeirismo

O levantamento aponta que parte dos grupos crêem que o autismo seria causado por “infecções parasitárias”, sugerindo “tratamentos” baseados na desparasitação. Em alguns casos, pais são orientados a dar cloroquina, ivermectina ou até alvejante diluído a crianças– práticas que já levaram a intoxicações graves e hospitalizações.

Além das substâncias perigosas, circulam teorias como a de que mudanças no campo magnético da Terra desencadeariam o Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou que vacinas contêm “toxinas causadoras de autismo” – mito já amplamente desmentido pela ciência.

Brasil: epicentro da desinformação

O país não só lidera em volume de mensagens, mas também em número de usuários expostos (1,7 milhões na região). O Telegram concentra a maior parte dos grupos, muitos cobram por “cursos” e “protocolos milagrosos”, movimentando um mercado ilegal.

A desinformação sobre autismo no Brasil não surge por acaso: ela é alimentada por uma combinação perigosa de baixa alfabetização científica, falhas na moderação das redes sociais e um mercado oportunista que se aproveita da vulnerabilidade das famílias.

No relatório publicado, os pesquisadores afirmam que: “As consequências vão além do universo digital. Ao disseminar essas visões patologizantes e prometer curas irreais, essas comunidades podem afetar decisões de familiares, políticas públicas e percepções sociais sobre o Autismo. […] alimentando medos infundados que podem resultar na formulação de políticas públicas segregatórias e até mesmo eugenistas, como a restrição de direitos de pessoas autistas.”

Onde procurar informações confiáveis e como denunciar conteúdos falsos?

Para evitar desinformação e garantir acesso a conhecimento científico e apoio qualificado, consulte fontes seguras. Organizações como Autistas Brasil e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) fazem trabalhos em prol da conscientização sobre o tema.

Sempre consulte um neuropediatra, psiquiatra ou psicólogo especializado antes de adotar qualquer intervenção.

As principais plataformas têm sistemas de reporte para conteúdos falsos ou perigosos. Você também pode abrir boletins de ocorrência em delegacias ou denunciar a órgãos oficiais como o Ministério da Saúde ou Ministério Público Federal.

Por Ariele Lima

Post Author: Rogenilson Reis

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