Faltando apenas uma assinatura para a instalação da CPI do Fura-Fila, estratégia governista é emparedar vereadores com clima de cassação ou suspensão
Do Blog Manoel Medeiros
A um mês do limite de renúncia do prefeito do Recife, João Campos (PSB), para possível disputa eleitoral e a apenas uma assinatura para a instauração da CPI do Fura-Fila na Câmara do Recife, o clima na Casa de José Mariano elevou-se de vez e começa a semana sob clima de fogo cruzado. Nunca uma gestão do PSB, nem na Câmara nem na Assembleia, passou por momento de tamanha fragilidade política e os mecanismos de silenciamento agora revelados mostram o grau de alerta no comando político da capital.
A publicação “em off” de uma série de notas pelo blog de Edmar Lyra, na última sexta-feira (27), dando conta de informações de bastidores que apontam para “decisões tomadas” em prol da cassação ou suspensão do mandato de três vereadores de oposição a João Campos trouxe à tona mais um plano da cúpula do PSB local de ameaça e silenciamento da oposição. A disposição de calar representantes que não se dobram ao poderio da família Campos Arraes pode, no entanto, virar o jogo a favor dos próprios parlamentares, que são pré-candidatos na eleição geral de 2026.
Os alvos das punições, que seriam orquestradas pela mesa diretora da Casa, incluem dois vereadores de direita, Eduardo Moura (Novo) e Thiago Medina (PL), e uma vereadora de esquerda, Jô Cavalcanti (PSOL). Os motivos das possíveis sanções são desproporcionais: Moura fez um “chifrinho” para constranger Chico Kiko (PSB) e depois pediu desculpas. Em revide, Kiko teria ameaçado de morte o vereador do Novo, segundo relatos de Moura.
Medina fez afirmações contra Osmar Ricardo (PT) que seriam caluniosas e Jô teria chamado vereadores de oposição de racistas. Por óbvio, todas as questões – ainda que possam merecer advertência – passam longe de justificar uma cassação de três mandatos de representação popular conquistados democraticamente pelo instrumento do voto.
Enquanto Eduardo Moura é cogitado para a disputa ao governo estadual, mas possivelmente será candidato a deputado federal, inclusive cotado para ser um dos mais votados de Pernambuco, Medina busca confirmação da legenda para também ser candidato à Câmara dos Deputados, embora tenha alguma dificuldade com o grupo dos Ferreira, que comanda a legenda no plano local. Jô Cavalcanti, por sua vez, é pré-candidata ao Senado da República na chapa de Ivan Moraes (PSOL) ao Palácio das Princesas e pode ter uma votação respeitável pela fidelidade às pautas progressistas.
Apesar da significativa diferença política de posições dos três, sobretudo em relação a Jô Cavalcanti, psolista raiz, o que coincide nas ameaças contra os três é o fato de terem assinado o requerimento da CPI do Fura-Fila além da não subordinação aos anseios da Secretaria de Governo do Palácio Antônio Farias, acostumada a controlar o Poder Legislativo municipal na rédea curta.
A vereadora, que é uma representante legítima da população mais pobre do Recife, e encarna em si a projeção da representação popular, tem perfil mais discreto contra a Prefeitura, mas não se dobra. Ela é a única vereadora da esquerda que foi em frente e pediu a investigação sobre o escândalo da mudança do resultado no concurso da Procuradoria, calo que segundo o que se diz fez até mesmo o prefeito adiantar o seu casamento com Tabata Amaral (PSB) em busca de virar a página.
Já Moura e Medina são muito enfáticos contra as ações da Prefeitura. Fenômeno das redes sociais, Eduardo Moura chega a ter vídeos com um milhão de visualizações e foi o autor do pedido de impeachment contra João Campos, arquivado pelo plenário da Casa. Medina, por sua vez, é o autor do pedido da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e dialoga com muita facilidade com o público jovem. Desde o início da legislatura, ele é considerado “um estranho no ninho” por não ter votado na candidatura à presidência de Romerinho Jatobá (PSB), o mais poderosos vereador do PSB, com influência direta na administração da capital.








