Por muitos anos, ele acreditou que as histórias podiam mudar vidas. Agora, sua própria história atravessa oceanos.
Em julho de 2026, as vozes ancestrais da África e do Brasil irão se encontrar sob a sombra simbólica dos baobás. E entre os homenageados da primeira edição internacional do Prêmio Baobá no continente africano estará um contador de histórias das margens do Rio São Francisco: o professor, escritor e narrador oral Willian Fernando Soares, conhecido carinhosamente como Professor Will.
O evento acontecerá entre os dias 7 e 14 de julho, no Lar dos Baobás, em Chongoroi, província de Benguela, Angola. Reconhecido internacionalmente como uma das maiores premiações dedicadas à arte narrativa, o Prêmio Baobá celebra aqueles que transformam palavras em pontes, memórias em patrimônio e histórias em ferramentas de transformação humana.
A homenagem ao Professor Will representa o reconhecimento de uma caminhada construída ao longo de mais de quatorze anos de dedicação à educação, à cultura, à leitura e à tradição oral.
Sua trajetória começou em salas de aula, bibliotecas, praças e comunidades de Juazeiro da Bahia. Ali, onde o Rio São Francisco desenha paisagens e histórias, ele descobriu que contar um conto era muito mais do que entreter. Era preservar memórias, fortalecer identidades e despertar sonhos para formar novos contadores de histórias.
Enquanto muitos enxergavam apenas narrativas populares, Will via tesouros culturais. Transformou lendas, causos, fábulas cantigas e tradições do sertão do Juazeiro em instrumentos de formação de leitores. Sua voz passou a ecoar em escolas, eventos culturais, programas de televisão e encontros literários, levando a riqueza do Vale do São Francisco para diferentes regiões do Brasil.
Ao longo dos anos, tornou-se referência nacional na arte da narração oral. Foi reconhecido como Patrono da Academia Brasileira de Contadores de Histórias, recebeu o Troféu Baobá pelo grupo movimento de Contadores de Histórias Sanfranciscano ( Trupe)— considerado o Oscar dos Contadores de Histórias — e consolidou uma produção literária dedicada à valorização da cultura sertaneja e sanfranciscana.
Mas talvez seu maior legado esteja longe dos troféus.
Está nas crianças que descobriram o prazer da leitura ouvindo uma história. Nos educadores que aprenderam a utilizar a narrativa como ponte pedagógica. Nos adolescentes,jovens, adultos que passaram a enxergar a própria cultura como algo valioso. E nos inúmeros narradores que encontraram inspiração em seu trabalho.
Agora, em Angola, o percurso ganha um novo significado.
A África é o berço de muitas das tradições orais que ajudaram a formar a identidade cultural brasileira. Levar para aquele continente as histórias nascidas às margens do Velho Chico é, de certa forma, completar um ciclo de ancestralidade, memória e pertencimento.
Quando subir ao palco do Prêmio Baobá Internacional, o Professor Will não representará apenas a si mesmo.
Representará Juazeiro, Petrolina e todo vale do São Francisco!
Representará o sertão.
Representará o povo ribeirinho.
Representará os mestres da oralidade primeira, seus avós… Pescadores, lavadeiras, vapozeiros, canoeiros, remeiros … que mantiveram vivas as histórias transmitidas de geração em geração.
Representará todos aqueles que acreditam que uma boa história é capaz de atravessar o tempo, as fronteiras e os oceanos.
Das margens do Rio São Francisco às terras africanas de Angola, a trajetória do Professor Will prova que as histórias possuem asas.
E algumas delas voam muito longe!
Por Aurora Dantas
Especial para o Caderno de Literatura e Cultura Popular








