Especialista destaca que investigação de eventos adversos faz parte do rigor científico e não diminui a importância das vacinas para a saúde pública
A decisão do Ministério da Saúde de suspender temporariamente a aplicação da vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan gerou dúvidas entre a população e levantou questionamentos sobre a segurança dos imunizantes. A medida foi anunciada após o registro de eventos adversos graves que estão sendo investigados pelas autoridades sanitárias. Até o momento, não há comprovação de relação causal entre os casos e a vacina.
Para a médica infectologista e professora do IDOMED (Instituto de Educação Médica), Dra. Sílvia Nunes Szente Fonseca, a suspensão deve ser compreendida como uma demonstração de que os mecanismos de monitoramento e segurança estão funcionando adequadamente.
“A decisão mostra que o sistema de farmacovigilância brasileiro está atento e atuante. Sempre que surge um evento inesperado após a introdução de uma nova vacina em larga escala, é natural e necessário que as autoridades interrompam temporariamente a estratégia para investigar com profundidade o que ocorreu. Isso faz parte da ciência e da segurança dos programas de imunização”, afirma a professora universitária.
Dra. Sílvia salienta que é importante evitar conclusões precipitadas enquanto as investigações estão em andamento. “É fundamental entender que suspensão não significa condenação. Neste momento, o que existe é uma investigação em curso para esclarecer se há ou não relação entre os eventos registrados e a vacina. A decisão de interromper temporariamente a aplicação foi tomada justamente para garantir que todas as análises sejam realizadas com o máximo rigor técnico e científico”, explica.
A infectologista ressalta que esse tipo de procedimento é adotado em diversos países e integra os protocolos internacionais de segurança de medicamentos e vacinas.
“A vigilância contínua não termina quando uma vacina é aprovada. Pelo contrário. Após sua utilização em larga escala, os sistemas de monitoramento seguem
acompanhando possíveis eventos adversos para garantir a proteção da população. Isso é uma demonstração de responsabilidade e transparência das autoridades de saúde”, destaca.
Dra. Sílvia também alerta para o risco de que notícias como essa alimentem a hesitação vacinal em um momento em que o Brasil e diversos países enfrentam desafios importantes no controle de doenças infecciosas.
“As vacinas continuam sendo uma das ferramentas mais eficazes para prevenir doenças graves, hospitalizações e mortes. A população precisa compreender que a investigação de possíveis eventos adversos não enfraquece a vacinação; pelo contrário, fortalece a confiança no sistema porque demonstra compromisso com a segurança dos pacientes”, afirma.
A especialista lembra que as evidências científicas acumuladas ao longo das últimas décadas demonstram de forma inequívoca o impacto positivo da imunização na saúde pública mundial. Um estudo publicado em 2024 na revista científica The Lancet, considerado a análise mais abrangente já realizada sobre o impacto histórico das vacinas, avaliou dados de 194 países ao longo de 50 anos, entre 1974 e 2024.
O levantamento estimou que os programas de vacinação evitaram 154 milhões de mortes em todo o mundo, sendo 146 milhões entre crianças menores de cinco anos e 101 milhões entre bebês com menos de um ano de idade. O estudo também concluiu que a vacinação foi responsável por aproximadamente 40% da redução da mortalidade infantil global observada nesse período e proporcionou um ganho estimado de 10,2 bilhões de anos de vida saudável para a população mundial.
Outro dado relevante apontado pelos pesquisadores é que, em 2024, uma criança com menos de 10 anos tem 40% mais chances de sobreviver ao próximo aniversário em comparação com um cenário hipotético em que os programas de vacinação não tivessem sido implementados ao longo das últimas cinco décadas.
“Quando analisamos os números em escala global, fica evidente que poucas intervenções em saúde tiveram impacto tão expressivo quanto as vacinas. Os benefícios acumulados ao longo dos últimos 50 anos salvaram milhões de vidas, reduziram o sofrimento de inúmeras famílias e transformaram a história da saúde pública. Por isso, é fundamental que situações pontuais sejam investigadas com rigor científico, sem comprometer a confiança em uma das estratégias mais eficazes já desenvolvidas para a prevenção de doenças”, ressalta a infectologista.
Enquanto as investigações seguem em andamento, a recomendação é que a população acompanhe as orientações dos órgãos oficiais de saúde e busque informações em fontes confiáveis.
“Quem já recebeu a vacina não deve entrar em pânico. As autoridades sanitárias estão trabalhando para esclarecer rapidamente o que aconteceu e tomar as decisões mais adequadas com base em evidências científicas. O mais importante neste momento é evitar a disseminação de boatos e aguardar os resultados das investigações”, conclui a Dra. Sílvia Nunes Szente Fonseca.








