“O grande obstáculo de ACM Neto é Lula”, diz cientista político

Por Guilherme Reis, Henrique brinco e Paulo roberto Sampaio

A menos de três meses do início oficial da corrida eleitoral de 2026, o cenário político baiano segue marcado pela polarização entre o grupo liderado pelo PT e a oposição comandada por ACM Neto. Embora as pesquisas indiquem a força do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no estado, o ex-prefeito de Salvador continua como principal nome do campo oposicionista, mantendo viva a disputa pelo Palácio de Ondina. Mas o que explica esse equilíbrio? As redes sociais já superaram o peso das lideranças tradicionais? A crise na base governista, provocada pela saída do senador Angelo Coronel da chapa majoritária, enfraquece o grupo de Jerônimo Rodrigues? E qual será o futuro da oposição caso ACM Neto sofra uma nova derrota? Para analisar esses e outros temas, a Tribuna da Bahia ouviu o cientista político Joviniano Neto, que traça um panorama da disputa estadual, avalia os desafios dos principais grupos políticos e aponta os fatores que podem definir o resultado das urnas em 2026.Tribuna: A Bahia vive um paradoxo interessante. Lula continua muito forte eleitoralmente, mas ACM Neto segue competitivo. Isso revela um eleitor que separa cada vez mais o voto nacional do estadual ou é um sinal de desgaste do PT no estado? O que o senhor acredita? 

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Joviniano Neto: Na Bahia, há bastante tempo, existem dois polos políticos. Um que seria o agrupamento que continua o carlismo, se eu quiser chamar de liberal-conservador ou de centro-direita, e um outro que está hoje em volta do PT que você pode chamar de centro-esquerda, desse tipo.Então, é uma divisão antiga. ACM Neto tem o recall da eleição passada, onde ele ganhou, onde ele tem votação expressiva. Ganhou em Salvador e várias grandes cidades. E se mantém como referência maior desse polo. Desse polo que eu chamo de centro-direita ou liberal-conservador. Conservador pode ser modernizante. Existe o conservador reacionário, existe o conservador modernizante. Joviniano Neto: Um reacionário é aquele, por exemplo, que dá declaração contra o voto feminino, que é um retrocesso de quase 100 anos. Quando foi Antonio Carlos Magalhães, foi uma gestão modernizante. E o grupo tem esse elemento empresarial modernizante e etc. Ele foi competitivo na eleição passada. Saiu, inclusive, na frente na eleição passada e se achava que ele ia vencer, o que o levou a cometer alguns enganos. Tentaram fazer uma chapa mais de acordo com o seu gosto. E depois Jerônimo cresceu, inclusive apoiado na capilaridade maior da base de apoio dele.

O partido maior hoje no estado é o PSD. O PSD é um partido de pequenos e médios municípios. Então, no fundo, a situação repete a anterior. É um recall da eleição anterior. São os mesmos dois candidatos. ACM Neto fortalecido por toda uma estrutura de apoio histórica, empresarial, atual, inclusive, e o governo da Bahia com a base, com apoio nacional ligado a Lula e com apoio numa estrutura da aliança dele, que é uma aliança de centro-esquerda: PSD, PSB, a federação Brasil da Esperança, PT, PCdoB e PV e outros partidos menores, Avante, companhia. Repete o quadro anterior. 

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Tribuna: E, dentro dessa lógica, essa crise que aconteceu envolvendo a formação da chapa governista para o Estado, com a saída de Angelo Coronel, é um enfraquecimento da capacidade de articulação do PT ou um efeito natural dessa disputa por espaços em uma coalizão que é bem ampla?

Joviniano Neto: O afastamento de Coronel tem alguns motivos. O primeiro motivo é o fato de que, dessa vez, o PT quis ter, ou precisou ter, duas vagas para o Senado. Na hora que Wagner resolveu ser candidato à reeleição, Rui Costa insistiu e terminaram colocando os dois como candidatos ao Senado, o que já excluiria o Coronel.

Além disso, Angelo Coronel é um aliado que vem da direita do PSD. O PSD é um partido de centro, mas, como todo partido, tem um pessoal mais avançado, um pessoal mais recuado, mais de direita, mas é um partido de centro. O centro é um ponto teórico, né? Existe do centro um pouquinho para a direita, um pouquinho para a esquerda.

O Coronel foi um setor mais conservador do próprio PSD e, no Senado, ele não foi um seguidor direto do governo. Ele tomava posições a favor, posições contra. Era um apoio instável, porque, em grande parte, ele era conservador e votava de acordo com suas opiniões.

Tribuna: Ele já disse que tinha votado em Bolsonaro…

Joviniano Neto: Na campanha agora, ele chegou a confessar uma coisa que enfraquece muito a imagem dele. Dizer que, na eleição passada, ele votou em Bolsonaro e não em Lula. É um conservador que foi assumido pela chapa, pela aliança com o PSD. E que, no PSD, passou a disputar espaço com o coordenador, o líder, os adversários dizem, o dono do PSD, que é Otto Alencar, que é uma estatura maior.

Então, ele não só não se mostrou um aliado confiável, como resolveu disputar espaço com outra liderança. No fundo, só tem duas vagas para o Senado. Da vez passada, se deu uma para o PT e uma para o PSD. Na hora que o PT precisou, porque não tinha condição de excluir Rui nem de excluir Wagner, que foi o grande mentor da chegada dele ao governo, aí criou essa dificuldade que o excluiria.

Conclusão: um setor do antigo PSD deve acompanhar Angelo Coronel. O quanto isso vai enfraquecer a coligação do governo e a base do próprio PSD, eu não sei dizer. O Coronel trabalhou como senador muito numa linha que eu chamaria municipalista, de atender, com emendas, com obras, com atuação nos municípios da base dele. O que ele vai conseguir levar para a campanha dele, eu tenho a impressão que vai ser menos do que ele esperava.

Tribuna: E se ACM Neto for derrotado pelo PT mais uma vez, a liderança dele sobre a oposição baiana vai ficar comprometida? E, se sim, há hoje alguma alternativa capaz de ocupar esse espaço ou a oposição continua excessivamente dependente dele?

Joviniano Neto: Pois você deu a resposta. Qual é a alternativa? Ele tem a marca ACM. Tem uma votação forte em duas eleições. João Roma se reaproximou dele, já inseriu a liderança via bolsonarismo, mas não se vê como provável uma liderança bolsonarista forte na Bahia. Zé Ronaldo já é um homem de uma certa idade e é uma liderança local, forte, implantada, enraizada, mas local. 

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Qual o outro nome que pudesse fazer frente? ACM Neto tem o nome, tem uma estrutura empresarial e de comunicação que o apoia. À primeira vista, não parece que surge outro nome, não.

Sem contar que, em 2030, Lula não é mais candidato. E aí o grande problema de ACM Neto é que não pode apoiar Lula, porque Lula é o candidato do PT, mas é o candidato apoiado pela maioria da população da Bahia.

Então, o grande obstáculo para a campanha dele ultrapassar os 50% é o fato de Lula ser apoiado pela maioria dos baianos. Da vez passada, ele ficou na base do tanto faz. Nesse ano, ele está com o mesmo problema em relação a Lula, que ele não pode apoiar, mas ele está, teoricamente, na base dele com dois candidatos.

Tribuna: E muito se fala também em Ronaldo Caiado…

Joviniano Neto: Caiado, que é aliado de Bolsonaro. E aí ficou uma situação diferente da vez passada. Ele está numa situação em que tem dois, teoricamente. Mas aí vai haver uma inversão do ditado popular. Existe um ditado popular que diz que quem tem dois tem um. Você lembra? Quem tem um não tem nenhum. Só que, nesse caso, é o contrário. Quem tem dois, na verdade, pode não ter nenhum.

Então, apoiar Caiado, que seria o natural, porque ele é ligado ao partido, é apoiar um candidato que não consegue chegar a 10% das intenções de voto. Apoiar Bolsonaro é apoiar o inimigo terrível de Lula.

Ele continua com a situação problemática e a causa principal do problema dele é Lula. Em 2030, Lula não vai ser mais candidato. Já foi reeleito e já estará com mais de 80 anos. Em 2030, tem uma chance maior, se ele se mantiver, de estar lá. E eu não vejo alternativa. Você conhece alguma liderança da oposição que apareça? Os dois candidatos são o senador Angelo Coronel e Roma. Não tem como ACM Neto não ser o principal nome para substituir a si mesmo, né? Qual é uma das lideranças mais fortes do grupo deles? Então, no fundo, não tem. Sobrevivendo a 2026, ele pode chegar em 2030 ainda competitivo e sem Lula.

Tribuna: Muito se fala também na força das redes sociais para influenciar o eleitor. O senhor acha que, na Bahia, as redes sociais têm alguma preponderância em influenciar o voto ou ainda pesam mais as estruturas políticas tradicionais? 

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Joviniano Neto: Na Bahia, a rede social pesa menos do que no conjunto de outros lugares, principalmente no Sul. Porque, na Bahia, o que define muito é a rede de relações familiares, grupais e locais.

Você tem 417 municípios. A maioria desses municípios tem bem menos de 50 mil eleitores, até menos de 20 mil. São municípios pequenos, com 5 mil, 10 mil, 3 mil, 15 mil… Então, são municípios pequenos. O que define mais é a rede de relações pessoais, familiares, tradicionais, as lideranças locais. E, claro, que a rede social cria um clima e a informação chega quase a todo lugar. Todo mundo tem celular. As informações chegam, mas batem em uma rede de relações já estruturada. 

A propaganda não cai sobre as pessoas como se fosse um piso igual. Ela encontra uma rede, ela retrata numa rede de relações. As redes sociais de gente, de relações, pesam mais forte do que as redes sociais digitais, no caso de um estado que tem grande parte do eleitorado no interior e em pequenos municípios.

Tribuna: E, por último, se a oposição vencer o governo da Bahia, o senhor acredita que será uma derrota de um projeto político iniciado por Wagner em 2006 ou uma alternância de poder que não acaba alterando a hegemonia do lulismo no estado da Bahia? 

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Joviniano Neto: Lula vai ganhar a eleição na Bahia. A dúvida é saber se ele terá, dessa vez, um percentual de votos menor do que teve na outra. Ele vai ganhar a eleição na Bahia, não tem dúvida. Ele ganhou todas as eleições que concorreu. Mesmo quando perdia nacionalmente, ele ganhava na Bahia. Há uma identificação do povo com a história dele, a figura dele, o estilo dele.

Então, a dúvida vai ser mais ou menos essa. Na eleição passada, foi a Bahia que decidiu a eleição para Lula. Na Bahia, a margem de vitória foi de 4 milhões de votos e Lula ganhou no Brasil por 2 milhões. A Bahia compensou e deu 4 milhões.

Então, está a saber se o percentual dele vai ser menor do que no pleito passado e se o percentual de Lula vai ser maior no Sul e no Sudeste do que na vez passada, na medida em que a utilização da máquina do governo foi muito forte no governo Bolsonaro, talvez agora esteja menos forte.

Sem contar que o candidato do bolsonarismo, Flávio Bolsonaro, tem uma série de fragilidades. Então, essa é a questão.

No caso, a votação de Lula sempre é bem maior que a do PT. A votação de Lula foi maior que a de Jerônimo também. Então, no próximo período, Lula eleito ou não, principalmente se ele for eleito, nós vamos viver a discussão de quem vai ser o Brasil pós-Lula, do PT pós-Lula, quem vai aparecer no campo da centro-esquerda que possa ser o candidato e substitua aquele que, até agora, é insubstituível.

Post Author: Rogenilson Reis

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