“Juá Literária: fantasia em tempos de escassez de imaginação”, por Ally Vianna

Pela terceira vez seguida, o livro mais vendido do Brasil é um devocional. Café com Deus Pai, do pastor Junior Rostirola, já soma dez milhões de exemplares e virou também o maior podcast do país no Spotify. Ao lado dele, no topo do ranking de 2025 levantado pela PublishNews, está Bobbie Goods (um livro de colorir). Cabe aqui um julgamento, mesmo sabendo que é um terreno delicado… a ficção, do jeito que ocupou o centro da vida cultural de gerações inteiras, está morrendo (pelo menos como hábito de massa) e não por falta de pessoas escrevendo. Itamar Vieira Junior publicou Torto Arado, levou o Prêmio LeYa, o Jabuti, o Oceanos, virou leitura obrigatória em vestibular, foi traduzido mundo afora. Mesmo assim, seu nome não chega perto de nenhuma lista de mais vendidos.

Quem passou dos vinte e cinco anos lembra do que era esperar um livro. As livrarias abriam à meia-noite para o lançamento de Harry Potter e a Ordem da Fênix, tinham crianças fantasiadas de bruxos na fila, adultos pedindo folga no trabalho para pegar o exemplar reservado e até pessoas terminando de ler em vinte e quatro horas só para não ser a última do grupo a saber o destino de Sirius Black. Uma geração antes, o mesmo acontecia com As Crônicas de Nárnia, onde, a criança que atravessava o guarda-roupa junto com Lúcia passava dias seguintes batendo com os nós dos dedos no fundo de armários comuns, só para checar, como uma crença coletiva, sustentada durante meses (às vezes anos) entre um volume e o seguinte.

Em dezembro de 2024, o Dicionário Oxford elegeu “brain rot” (“cérebro apodrecido”, em tradução livre) como a palavra do ano. O termo teve um crescimento de 230% no uso ao longo do ano e passou a ser utilizado para descrever os efeitos do consumo excessivo de conteúdos curtos, repetitivos e fragmentados na internet, associados à redução da capacidade de concentração, do pensamento crítico e da criatividade.

O fenômeno é representado por conteúdos como Skibidi Toilet (série de vídeos em que privadas com cabeças humanas enfrentam personagens com televisores no lugar da cabeça) em narrativas sem lógica ou continuidade. Esses vídeos se tornaram populares entre a Geração Alpha (grupo formado por crianças nascidas a partir de 2010). Marcados pelo absurdo, pela repetição e pelo ritmo acelerado, esses conteúdos são apontados por pesquisadores como exemplos da lógica do brainrot, que privilegia estímulos imediatos em detrimento da atenção, da interpretação e da compreensão de narrativas mais complexas.

Diante desse cenário de fragmentação, é fácil acreditar que a imaginação profunda foi engolida por um algoritmo, afinal, sensação de desconexão é brutal. Se a mente infantil é bombardeada pelo absurdo a cada cinco segundos, como ela vai construir seu próprio mundo interior? Penso nisso porque cresci imerso no próprio folclore nordestino. Foi meu pai quem sempre fez questão disso e me ensinou a parar e ouvir quando alguém começa uma história, mesmo sem saber ainda pra onde ela vai dar.

Por isso, na segunda edição do Festival Juá Literária, entre os dias 20 e 25 de julho, na Orla Nova, fui como quem reconhece, e o que reconheci ali foi, antes de tudo, um profundo sentimento de resgate. A feira era um ato de resistência, ao afirmar a cultura local como pilar, o festival ofereceu às crianças exatamente o que lhes tem sido roubado… uma imersão real na fantasia. Havia ali a construção de um universo imagético poderoso, por ser genuinamente nosso.

O tema deste ano era “Palavras que navegam pelo tempo”. O festival homenageou cinquenta escritores juazeirenses, entre póstumos, clássicos e contemporâneos, e abriu espaço para trinta autores do Vale do São Francisco lançarem seus livros no Cais da Palavra. Passei pela tenda Juazinha e vi o bonequeiro Sebastião Simão encenando “A Princesa e o Dragão” pra uma plateia de crianças sentadas no chão, em silêncio. Vi a Carreta Literária levando cordel e sanfona pelas ruas.

Nenhuma dessas cenas competia com o Skibidi Toilet. Não precisava. Essa distância se encurta quando percebemos que o encantamento ganha força quando nos vemos representados na narrativa. Vi Daniel Munduruku, autor indígena, dividindo programação com cantadores de cordel, e entendi ali uma coisa que meu pai sempre soube, mas que eu levei anos pra formula… contar história pra criança na nossa terra era (e continua sendo), um jeito de dizer “isso aqui é seu” antes que qualquer outra coisa chegue primeiro.

Não sei se o Brasil vai voltar a fazer fila de livraria à meia-noite. Mas em Juazeiro, quase cem mil pessoas atravessaram a Orla Nova atrás de uma história para ouvir. E em algum canto do Centro de Cultura João Gilberto, uma criança de sete anos estava ali, de boca aberta, vendo uma princesa lutar com um dragão feito de pano e madeira. O Juá Literária pode, como qualquer política cultural, ser aperfeiçoado. Mas é difícil sair dali sem a impressão de que investir na imaginação continua sendo uma das formas mais poderosas de preservar uma cultura.

Por Ally Vianna, estudante de jornalismo, colaborador do PNB

Post Author: Rogenilson Reis

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