Sob o manto da fé, Juazeiro celebra Nossa Senhora das Grotas em procissão e missa marcada por devoção e tradição

No fim da tarde desta terça-feira (8), às ruas de Juazeiro foram tomadas por um sentimento que atravessa gerações: a fé. De um lado, famílias aguardavam nas portas de suas casas. De outro, comunidades, pastorais, movimentos e irmandades se preparavam para seguir o andor de Nossa Senhora das Grotas, padroeira do município.

Mais do que um cortejo religioso, a Procissão da Padroeira reuniu histórias de pessoas que aprenderam, ainda na infância, a reconhecer na santa um símbolo de esperança, proteção e pertencimento.

A concentração aconteceu na Igreja São Geraldo, no bairro São Geraldo, nas proximidades da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), de onde a procissão saiu por volta das 18 horas. O cortejo percorreu as ruas Edgard Chastinet e das Algarobas e seguiu pelas avenidas Eliseu Martins do Nascimento, Ulisses Guimarães e Adolfo Viana, até chegar à Praça da Catedral.

À frente da procissão estava a Irmandade de Nosso Senhor dos Aflitos, o Apostolado da Oração e a Confraria de Nossa Senhora do Rosário. Na sequência, vieram a Confraria do Sagrado Coração de Jesus, a Confraria de São José, a Confraria da Imaculada, o Movimento Terço dos Homens e o Movimento Escalada.

O primeiro carro de som abriu espaço para as comunidades do Santíssimo Redentor, São Geraldo, São Pedro e São Vicente de Paulo. Em seguida, desfilaram as pastorais e movimentos, entre eles a Pastoral Catequética e a Pastoral Familiar.

Depois, o segundo carro de som conduziu a caminhada, seguido pela Pastoral do Dízimo, Legião de Maria, Mães que Oram pelos Filhos e Comunidade Mãe Imaculada.

O momento mais esperado veio logo depois: o andor de Nossa Senhora das Grotas. A imagem, cercada por fiéis, avançou pelas ruas acompanhada pelo terceiro e último carro de som. Atrás dela, estava o que talvez seja o elemento mais importante de toda a celebração: o povo de Deus.

Uma fé passada por gerações

Mais de três séculos depois, a história continua sendo recontada pelas ruas da cidade, não apenas por documentos ou relatos religiosos, mas principalmente pelas pessoas que carregam a devoção dentro de casa.

Aos 29 anos, Júnior, morador do bairro São Geraldo desde o nascimento, cresceu dentro da Igreja Católica. Para ele, a devoção à padroeira representa esperança e força para enfrentar o cotidiano.

“A importância da devoção à Nossa Senhora é que ela nos traz esperança para viver, para vivermos no nosso dia a dia com a nossa fé, para ficar junto a Deus.”

Para o devoto, ver a procissão passar novamente diante de sua casa também é motivo de alegria.

“É uma grande alegria para nós aqui. É a terceira vez que a procissão passa por aqui. E a alegria é grande.”

Na mesma rua, a espera pela passagem da imagem também carrega lembranças. Aos 58 anos, Josilene Almeida Silva diz que acompanha a devoção a Nossa Senhora das Grotas desde pequena. Para ela, ensinar a fé às novas gerações é uma forma de manter viva uma tradição familiar.

“Eu ensino a eles a função da Igreja na vida da gente. Quando eles perguntam, desde pequenos, eu ensino o caminho da Igreja.”

A história de Ana Patrícia da Silva Brito, de 52 anos, também se mistura à devoção. Ela aprendeu a seguir Nossa Senhora das Grotas com a mãe e diz carregar uma relação ainda mais profunda com a padroeira depois de enfrentar um problema de saúde.

“Desde pequena eu aprendi com minha mãe. Através dela foi que eu vim. Sou devota e recebi um milagre. Há cinco anos fiz uma cirurgia que, graças a Deus, deu tudo certo. É por isso que todos os anos eu venho.”

Em outro ponto do percurso, Erineide, de 45 anos, moradora do bairro Macaúba, também esperava pela passagem da procissão. Natural da Paraíba, ela conta que acompanha a celebração desde que chegou a Juazeiro, há cerca de 23 anos.

“Desde o ano em que cheguei aqui, comecei a participar das procissões. Desde lá, não parei. Sou da Paraíba, mas desde que vim para cá acompanho a procissão de Nossa Senhora das Grotas.”

A devoção, no entanto, não ficou apenas com ela. A filha, Maria Clara, de 18 anos, cresceu participando das celebrações.

“É muito importante porque fui criada em berço católico. Desde sempre acompanho tanto a devoção quanto Nossa Senhora das Grotas, Nossa Senhora Aparecida e Santa Terezinha.”

A frase resume o que se viu pelas ruas de Juazeiro nesta terça-feira: para muitas famílias, a procissão não é apenas uma tradição religiosa. É um compromisso de fé que passa de geração para geração.

Prefeito destaca participação popular-O prefeito de Juazeiro, Andrei Gonçalves, acompanhou a celebração e destacou a dimensão da participação popular na procissão. Segundo ele, a estimativa era de aproximadamente 50 mil pessoas durante o cortejo.

“Nesse dia em que a gente se alegra. Hoje estamos aqui na procissão da Nossa Senhora das Grotas, que comemora 330 anos de encontro pelos índigenas da Nossa Senhora das Graças e comemora-se esses 330 anos com essa grande caminhada, essa grande procissão que aconteceu aqui nas ruas de Juazeiro. Feliz em saber que a gente tá conseguindo atender todo o povo de Juazeiro, a todos os segmentos da sociedade.”

A cidade sob o manto da padroeira-Neste ano, a festa de Nossa Senhora das Grotas foi celebrada com o tema “Há 320 anos, Nossa Senhora das Grotas conduz seus filhos a Jesus!”, reforçando uma devoção que, segundo a tradição local, acompanha o povo da região há mais de três séculos.

Inspirada na passagem bíblica “Todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1,48), a celebração também evidencia a presença da padroeira na vida religiosa e cultural de Juazeiro.

Para o pároco da Catedral-Santuário Nossa Senhora das Grotas e vigário-geral da Diocese de Juazeiro, Monsenhor Jodean Amâncio dos Santos, a importância da padroeira está diretamente ligada à própria origem e identidade do município.

“Nossa Senhora das Grotas para Juazeiro está no começo de Juazeiro, ela faz parte da cultura. Veja a procissão hoje. Ela faz parte da cultura e da identidade do juazeirense. O juazeirense não se entende sem Nossa Senhora das Grotas.”

Ao chegar à Praça da Catedral, a procissão deu lugar à celebração da Santa Missa Solene, encerrando oficialmente as festividades em homenagem à padroeira.

Uma devoção que atravessa séculos-A história de Nossa Senhora das Grotas remonta a 1706, quando o rio São Francisco tinha um volume maior e alcançava a região onde hoje está localizada a Catedral.

Segundo a tradição, as águas escavaram pequenas cavidades na terra, conhecidas como “grotas”. Foi em uma delas, conta a história religiosa local, que um indígena encontrou uma pequena imagem da Virgem Maria.

A imagem teria sido entregue a um vaqueiro e, posteriormente, chegou às mãos de frades franciscanos. A pequena escultura, até então anônima, ganhou nome: Nossa Senhora das Grotas.

Poucos anos depois, os franciscanos construíram uma pequena igreja de alvenaria no local associado à descoberta da imagem. A devoção cresceu e se incorporou à própria formação de Juazeiro.

Quando o município foi criado, uma das primeiras decisões tomadas foi justamente reconhecer Nossa Senhora das Grotas como sua padroeira.

Ascom/PMJ

Post Author: Rogenilson Reis

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