Ofensiva em busca da reeleição busca associar vitória de Flávio Bolsonaro ao fim de conquistas econômicas e programas sociais para a classe trabalhadora
Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio BolsonaroCrédito: Ricardo Stuckert | Vittor Sales
247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara para o segundo turno uma campanha mais agressiva contra Flávio Bolsonaro (PL), centrada em alertar os eleitores sobre perdas sociais e econômicas que, na avaliação dos petistas, poderiam ocorrer caso o adversário chegue à Presidência. A estratégia, tratada como uma “campanha do medo”, será combinada com uma ofensiva para conquistar parte dos cerca de 33 milhões de brasileiros que não compareceram às urnas no primeiro turno.
Segundo reportagem de Letícia Casado e Tatiana Farah, do UOL, a estratégia lembra a adotada pela campanha de Dilma Rousseff contra Marina Silva durante a eleição presidencial de 2014, quando o PT buscou associar uma eventual vitória da então adversária a riscos para conquistas econômicas e programas sociais. A ofensiva ficou conhecida naquele pleito como “campanha do medo”.
No caso de Flávio Bolsonaro, a campanha de Lula pretende apresentar ao eleitor quais seriam, segundo o PT, os riscos de uma mudança de governo, contrapondo o projeto do presidente às propostas do candidato do PL. O objetivo é aumentar a rejeição ao adversário e, ao mesmo tempo, mobilizar eleitores que não compareceram no domingo.
A mudança de estratégia ocorre depois de Flávio terminar o primeiro turno com vantagem de cerca de 2,2 milhões de votos sobre Lula. O resultado abalou a campanha governista, que já considerava provável a realização de um segundo turno, mas esperava que o presidente chegasse à nova etapa numericamente à frente.
Ausentes viram alvo prioritário
Os dois candidatos voltam suas atenções especialmente para os eleitores que não participaram do primeiro turno. Cerca de 33,4 milhões de brasileiros deixaram de comparecer às urnas, contingente muito superior à diferença registrada entre Flávio e Lula.
O PT avalia que há espaço para crescer entre eleitores menos ideologicamente engajados e entre aqueles que desistiram de votar. A campanha pretende concentrar esforços sobretudo em regiões onde Flávio avançou em comparação com o desempenho de Jair Bolsonaro em 2022, incluindo o Nordeste.
Na reta final do primeiro turno, Lula já havia feito apelos pela participação eleitoral, mas concentrou a mobilização principalmente nos brasileiros com 70 anos ou mais, grupo de mais de 17 milhões de eleitores. Agora, a campanha pretende ampliar o alcance para todas as faixas etárias entre os ausentes.
A estratégia eleitoral terá, portanto, duas frentes simultâneas: de um lado, uma campanha de contraste mais duro contra Flávio, enfatizando possíveis perdas associadas a uma vitória do candidato do PL; de outro, uma agenda positiva destinada a apresentar medidas sociais e trabalhistas do governo.
Fim da escala 6×1 e Bolsa Família
Entre as principais apostas petistas está o debate sobre o fim da escala de trabalho 6×1. A proposta entra na agenda do Senado nesta terça-feira (6) e deverá ser explorada pela campanha como uma medida diretamente relacionada às condições de trabalho.
Outro elemento considerado importante será o pagamento do Bolsa Família com valor reajustado. O benefício passará de R$ 600 para R$ 691, com pagamentos previstos a partir de 19 de outubro, poucos dias antes do segundo turno.
A expectativa da campanha é que medidas desse tipo ajudem Lula a confrontar o discurso de mudança utilizado por Flávio Bolsonaro, mostrando ao eleitor benefícios que, segundo os petistas, poderiam ficar ameaçados por uma troca de governo.
A equipe de Flávio, por sua vez, pretende seguir uma linha diferente. A avaliação entre bolsonaristas é que o candidato deve explorar principalmente o antipetismo e o desejo de mudança, tentando conquistar os aproximadamente 9 milhões de votos destinados a candidatos da chamada terceira via no primeiro turno.
Estratégia lembra eleição de 2014
A referência à “campanha do medo” remete diretamente à eleição presidencial de 2014. Naquele momento, a campanha de Dilma Rousseff adotou uma ofensiva contra Marina Silva quando a então candidata aparecia como ameaça à reeleição da petista.
O marketing petista procurou apresentar propostas de Marina como ameaças a direitos sociais e à estabilidade econômica. O responsável pelo marketing de Dilma naquela eleição era João Santana, cujo nome voltou a circular entre integrantes do PT diante da insatisfação com a comunicação atual da campanha.
Há críticas internas ao trabalho conduzido pelo ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, e à campanha comandada por seu sócio, Raul Rabelo. A derrota numérica de Lula no primeiro turno aprofundou as cobranças e desencadeou discussões sobre os erros cometidos até aqui.
Além da ofensiva eleitoral, outra possibilidade discutida é antecipar nomes que poderiam participar de um eventual novo governo Lula. Entre eles aparece o vice-presidente Geraldo Alckmin para o Ministério da Fazenda, numa tentativa de transmitir previsibilidade econômica e reduzir a preferência demonstrada por parte do mercado financeiro por uma vitória de Flávio.
Reforços na campanha
A campanha também deverá incorporar reforços políticos do Nordeste. O senador eleito Rui Costa, que teve votação expressiva na Bahia, deve participar da coordenação, assim como Camilo Santana, ex-ministro de Lula e integrante da campanha vitoriosa de Elmano de Freitas contra Ciro Gomes no Ceará.
Há ainda expectativa de entrada do publicitário Otávio Antunes na equipe de marketing. Ele participou da campanha presidencial de Fernando Haddad e mantém relação próxima com o PT.
Flávio Bolsonaro, enquanto isso, aposta que receberá parcela significativa dos votos dados no primeiro turno aos demais candidatos da direita e do centro. Sua campanha calcula que parte do eleitorado de Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e Augusto Cury poderá migrar para o candidato do PL.
Para Lula, portanto, o desafio do segundo turno vai além de buscar os votos transferíveis de outros candidatos. A estratégia passa por aumentar o comparecimento às urnas, recuperar eleitores menos mobilizados e convencer uma parcela do eleitorado de que a vitória de Flávio Bolsonaro representaria riscos a políticas e conquistas sociais — o eixo que deverá sustentar a chamada “campanha do medo” nas três semanas restantes da disputa.







