Entre 16 de agosto e 4 de outubro, jornalistas e veículos de imprensa foram alvo de 14.182 ataques no X e no Instagram, uma média de 283 por dia. O número é de um levantamento da Coalizão em Defesa do Jornalismo (CDJor) em parceria com o Laboratório de Internet e Ciência de Dados da Universidade Federal do Espírito Santo (Labic/Ufes) e o ITS Rio, que analisou cerca de 3,7 milhões de publicações e comentários ao longo da campanha do primeiro turno das eleições de 2026.
A hostilidade acelerou conforme a votação se aproximava: a média diária saltou de 188 ataques, no início da campanha, para 327 nos oito dias finais, alta de aproximadamente 74%. E ela tem alvo definido. Entre os ataques dirigidos a jornalistas identificados individualmente, 64,8% atingiram mulheres.
Em Juazeiro, no norte da Bahia, o relato da redatora do Portal Preto no Branco e radialista Sibelle Fonseca mostra como esse cenário chega a uma redação local.
Nessa quarta-feira (14), a partir das 12h25, a profissional recebeu mensagens de vários números diferentes pelo WhatsApp, em menos de meia hora. Uma ação, ao que pareceu, orquestrada por bolsonaristas. Os remetentes, alguns que participam do grupo BA DIREITA/JUAZEIRO atacavam o posicionamento do veículo, xingavam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e também a editora, manifestando apoio a Flávio Bolsonaro.
Os bolsonaristas utilizam termos como “jornalista militante”, “propaga fake news”, “jornalista vendida” e “caiu Pix”
Sibelle Fonseca respondeu aos contatos e estabeleceu limites para as abordagens. “Esse espaço não é destinado ao seu ódio. Caso tenha alguma reclamação, denúncia ou serviço de interesse social, pode nos enviar. Vamos estabelecer o limite do respeito”, escreveu.
O mesmo comportamento de ataques, até à vida pessoal da jornalista, é diário no Instagram do portal. Alguns atacam a honra e dignidade da editora.
Em um deles, o internauta Ricardo William utiliza o termo “vagabunda”.
Outro seguidor, o idoso Álvaro França, escreveu: “Os chifres que você deu (…) Lula é um Ladrão”.
A jornalista já acionou a justiça para ambos os casos.
O episódio reúne, em escala local, elementos descritos no levantamento: cobrança política dirigida à imprensa, desqualificação da linha editorial e ofensa de gênero. Há ainda um ponto cego nas estatísticas. O monitoramento da CDJor analisa publicações e comentários no X e no Instagram, o que deixa de fora mensagens privadas como as recebidas por Sibelle no WhatsApp. Situações assim não entram na contagem dos 14.182 ataques. A própria Bahia já aparece em terceiro lugar entre os estados com mais ataques ligados às disputas estaduais na quinzena de 30 de agosto a 12 de setembro.
O Portal Preto no Branco assume publicamente seu compromisso com a defesa da democracia e dos direitos sociais. Essa posição não dispensa o rigor na apuração, a distinção entre fatos verificados e alegações e o espaço para as manifestações dos envolvidos.
Mulheres são o principal alvo individual/ A escalada em números
O monitoramento da CDJor, que reúne onze organizações de defesa da imprensa, entre elas Abraji, Fenaj, Jeduca e Repórteres sem Fronteiras, rastreou 652 termos e hashtags ofensivos durante 50 dias. Os principais resultados do relatório “Cobrir as eleições, enfrentar a violência”:
- 14.182 ataques a jornalistas e veículos entre 16/8 e 4/10, ou 283 por dia;
- De 2.630 para 4.400 ataques entre a primeira e a segunda quinzena de campanha, alta de 67,3%;
- De 188 para 327 por dia: a média diária no início da campanha e nos oito dias anteriores à votação (+74%);
- Mais alvos: na segunda quinzena, 86 jornalistas e 109 veículos diferentes foram atingidos, contra 46 jornalistas e 91 veículos na primeira;
- Eleição presidencial: quase 80% dos ataques cujo contexto eleitoral foi identificado estavam ligados à disputa pela Presidência.
O crescimento acompanhou a expansão do próprio debate eleitoral nas redes. O universo de conteúdos coletados passou de 519.224 publicações e comentários na primeira quinzena para 1.183.753 na segunda, alta de 128%. Os ataques cresceram em números absolutos, mas em ritmo menor que o conjunto de conteúdos analisados, o que ajuda a dimensionar o fenômeno sem exagero.
Quando o foco são os ataques dirigidos a jornalistas específicos, e não a veículos ou à imprensa em geral, o recorte de gênero se impõe. Foram 3.106 registros nessa categoria, dos quais 2.013 (64,8%) contra mulheres. As mensagens incluíram questionamentos ao trabalho profissional, insultos sexuais, ofensas misóginas e incentivo à violência física.
A concentração é maior do que a quantidade de profissionais atingidas sugere. Na quinzena de 30 de agosto a 12 de setembro, no Instagram, 25 jornalistas mulheres receberam 375 ataques, enquanto 39 homens receberam 261… as mulheres foram alvo de 59% das agressões, mesmo sendo menos numerosas entre os atingidos.
O padrão não é uniforme ao longo do tempo. Nos oito dias finais da campanha, os homens concentraram 55,1% dos ataques individuais, resultado influenciado, segundo o levantamento, por uma ofensiva contra o jornalista Ricardo Noblat no X. O dado mostra como poucos episódios podem alterar o retrato em curtos períodos.
Os casos documentados ilustram o tipo de ataque. Juliana Dal Piva foi a jornalista mais atacada no X na segunda quinzena, com 94 ocorrências, em meio à repercussão de reportagens sobre o caso Banco Master: recebeu acusações de “fake news”, ofensas sexuais e misóginas e incentivo à violência física. Natalia Viana, da Agência Pública, começou a ser atacada depois de procurar uma fonte durante uma apuração, antes mesmo da publicação da reportagem. Maria Cristina Fernandes foi alvo de uma onda de ofensas após um comentário na GloboNews sobre Nossa Senhora Aparecida.
Nas eleições municipais de 2024, a CDJor já havia identificado as jornalistas como alvo desproporcional: elas receberam 50,8% dos ataques, embora fossem 45,9% dos profissionais monitorados. Os dois levantamentos têm escopos diferentes (em 2024, o monitoramento incluiu também o TikTok e ataques presenciais), o que impede uma comparação direta dos números, mas a presença das mulheres no centro dos ataques se repete.
Deslegitimar para intimidar
Boa parte da hostilidade não contesta um fato… tenta desacreditar quem o noticia. Expressões como “fake news”, “jornalista militante”, “imprensa golpista”, “imprensa vendida” e “caiu Pix” aparecem de forma recorrente, ao lado de acusações de manipulação de pesquisas eleitorais. O monitoramento observou esse tipo de ataque em diferentes posições do espectro político.
O Instagram reuniu 61,8% dos ataques identificados em todo o período, mas o X passou a concentrar a maior parcela na reta final e registrou o maior índice de toxicidade. Na quinzena de 30 de agosto a 12 de setembro, a média foi de 38,2% no X e de 22,9% no Instagram, em uma escala de 0% a 100% calculada pela ferramenta Perspective API, do Google, que estima a probabilidade de uma mensagem ser percebida como tóxica.
No X, os veículos mais atingidos naquela quinzena foram de alcance nacional: Folha de S.Paulo (241 ataques), GloboNews (206) e g1 (161). O recorte estadual mostra que a hostilidade não se limita ao eixo Rio-São Paulo. Entre os ataques ligados às disputas estaduais, lideraram Minas Gerais (213), São Paulo (174), Bahia (94), Distrito Federal (86) e Pernambuco (64).
Do ataque ao silêncio
Para a Abraji, integrante da coalizão, o efeito vai além das vítimas diretas. A coordenadora jurídica da entidade, Letícia Kleim, avalia que a onda de ofensas busca minar a credibilidade e, muitas vezes, amedrontar quem faz jornalismo, e que o prejuízo é coletivo, porque a sociedade perde acesso a informações de interesse público.
O monitoramento registra um desfecho extremo. O Tapajós de Fato, veículo independente de Santarém (PA), decidiu não cobrir as eleições de 2026 após anos de ameaças e episódios de violência contra a equipe e deixou de realizar pautas previstas sobre candidatos e temas como garimpo, agronegócio e grandes obras.
Os números das eleições se somam a outros indicadores citados em audiência do Conselho de Comunicação Social do Congresso, em julho: segundo a Abert, as menções agressivas ou ameaçadoras a jornalistas cresceram 35% em 2025, chegando a cerca de 900 mil; a Fenaj registrou 144 casos de violência contra jornalistas em 2024; e a CDJor contabilizou mais de 57 mil ataques digitais ligados à campanha municipal daquele ano.

Crítica é um direito; intimidação, não
O direito à crítica não está em discussão. Leitores, ouvintes e espectadores podem questionar a cobertura de um veículo, contestar informações e cobrar explicações sobre escolhas editoriais. O problema surge quando a divergência dá lugar a ofensas misóginas, tentativas de constrangimento ou ações destinadas a deslegitimar profissionais por causa de seu trabalho.
O relatório da CDJor cobre apenas o primeiro turno, e ainda não há números sobre a fase final da disputa. O que os dados já indicam é que a hostilidade contra a imprensa cresce junto com a temperatura da campanha, e o caso de Juazeiro mostra que ela também alcança a imprensa local.
Fontes dos dados: relatório “Cobrir as eleições, enfrentar a violência” (CDJor/Labic-Ufes/ITS Rio), conforme divulgado por Agência Brasil (via Acessa.com) e ES Hoje; boletim quinzenal de 30/8 a 12/9 da CDJor, divulgado pelo ICL Notícias; dados da Abert e da Fenaj citados em audiência no Conselho de Comunicação Social (Agência Câmara); dados de 2024 da CDJor, conforme CPJ.
Redação PNB







