O adenocarcinoma de pulmão, tipo de câncer diagnosticado no Papa Leão XIV, também pode atingir pessoas que nunca fumaram. O alerta é da professora do Instituto de Educação Médica (IDOMED) Clarissa Baldotto, atual presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), que destaca a importância da investigação de alterações suspeitas nos pulmões e do diagnóstico precoce para ampliar as chances de tratamento e cura.
Segundo dados da Associação Internacional para o Estudo do Câncer de Pulmão (IASLC), a sobrevida em cinco anos para pacientes com adenocarcinoma pode chegar a 90% a 92% quando a doença é identificada no estágio mais inicial, o 1A1. Os índices diminuem conforme o câncer avança, podendo variar de 12% a 41% no estágio 3 e chegar a, no máximo, 15% no estágio 4. O estágio do tumor diagnosticado no Papa, de 71 anos, não foi divulgado pelo Vaticano.
Leão XIV foi submetido a uma cirurgia na terça-feira (13), no hospital Gemelli, em Roma, para retirar uma lesão identificada em exame de rotina. O procedimento removeu o lobo inferior do pulmão direito por meio de uma técnica videoassistida e durou cerca de 90 minutos, sem complicações, segundo o boletim médico do Vaticano. O pontífice acordou normalmente, e a previsão inicial era de uma semana de internação.
Rastreamento é indicado para pessoas com alto risco
A tomografia computadorizada de tórax de baixa dose de radiação é o exame recomendado para o rastreamento do câncer de pulmão em pessoas com maior risco de desenvolver a doença. De acordo com Clarissa Baldotto, as diretrizes brasileiras consideram elegíveis pessoas entre 50 e 80 anos que tenham histórico de tabagismo superior a 20 anos-maço e que ainda fumem ou tenham parado há menos de 15 anos.
A medida de anos-maço considera a quantidade de cigarros consumidos diariamente e o tempo de tabagismo. Fumar um maço por dia durante 20 anos, por exemplo, corresponde a 20 anos-maço. Para esse grupo de alto risco, o exame deve ser realizado anualmente.
Embora o câncer de pulmão também acometa pessoas que nunca fumaram ou que tiveram menor exposição ao tabaco, o rastreamento sistemático ainda não é recomendado para esses grupos. Segundo a especialista, estudos estão em andamento para identificar critérios que permitam selecionar pessoas não fumantes que poderiam se beneficiar do rastreamento, considerando fatores como o histórico familiar.
Isso não significa, porém, que alterações pulmonares possam ser ignoradas. “Nódulos suspeitos ou imagens suspeitas nunca devem ser ignorados”, alerta Baldotto. Ela explica que o câncer pode ser identificado durante exames solicitados por outros motivos e que a possibilidade da doença precisa ser considerada mesmo quando o paciente não tem histórico de tabagismo.
Tosse persistente e perda de peso exigem atenção
O câncer de pulmão pode permanecer silencioso, principalmente nas fases iniciais. Ainda assim, alguns sinais devem motivar uma avaliação médica, como tosse persistente, presença de sangue ao tossir, perda de peso sem explicação, dor em qualquer região do tórax e cansaço ou falta de ar que pioram com o tempo.
Esses sintomas não são exclusivos do câncer de pulmão e podem estar associados a outras condições. A orientação é buscar atendimento médico para investigar a causa, especialmente quando as manifestações persistem ou se agravam.
A especialista também chama a atenção para o cenário brasileiro. Embora não haja um dado nacional documentado que permita estabelecer um tempo médio preciso entre a identificação de um nódulo suspeito, a confirmação do diagnóstico e o início do tratamento, ela afirma que a espera é maior do que a recomendada.
Segundo Baldotto, entre 70% e 80% dos pacientes com câncer de pulmão no Brasil recebem o diagnóstico em estágio avançado, o estágio 4. Nessa fase, a doença geralmente já não pode ser tratada com intenção curativa por meio de cirurgia para retirada do tumor.
Adenocarcinoma tem características próprias
O adenocarcinoma é atualmente o tipo mais comum de câncer de pulmão no Brasil e no mundo. Conforme explica Baldotto, ele se origina nas células do epitélio glandular, enquanto o carcinoma de células escamosas se desenvolve a partir de outro tipo de célula epitelial.
O adenocarcinoma pode ocorrer em pessoas que nunca fumaram, embora também seja frequente entre indivíduos com histórico de tabagismo. Em muitos casos, surge na região periférica dos pulmões, mas essa localização não é uma regra.
Outra característica importante é a presença de alterações genéticas nas células tumorais. O perfil dessas alterações pode variar entre os diferentes tipos de câncer de pulmão e influencia diretamente a escolha do tratamento.
Perfil genético orienta o tratamento
A análise molecular do tumor é fundamental para identificar alterações que possam tornar o câncer sensível a medicamentos específicos. De acordo com Baldotto, o perfil genético tem papel central na definição do tratamento sistêmico, inclusive para pacientes que passaram por cirurgia.
A oncologista cita como exemplo os tumores com alteração no gene ALK, que podem responder a medicamentos conhecidos como inibidores de ALK, inclusive em situações de doença avançada e presença de metástases.
A depender das características do tumor e do estágio da doença, o tratamento pode incluir terapia-alvo, imunoterapia ou quimioterapia. A indicação é individualizada e considera os resultados dos exames e as condições clínicas do paciente.
A avaliação molecular ajuda a identificar quais medicamentos têm maior possibilidade de benefício e orienta a escolha terapêutica de acordo com as características de cada tumor.
Recuperação após a cirurgia
A lobectomia, procedimento que consiste na retirada de um dos lobos do pulmão, é uma das principais opções cirúrgicas para tratar o câncer de pulmão em estágio inicial, quando há indicação e o paciente apresenta condições clínicas para a operação.
Antes da cirurgia, são realizados exames para avaliar a capacidade respiratória e o risco de complicações. Em alguns casos, também é indicado o teste cardiopulmonar de exercício. A idade e a presença de outras doenças são consideradas para estimar como o organismo poderá responder à retirada de parte do pulmão.
Segundo Baldotto, técnicas minimamente invasivas, como a cirurgia toracoscópica videoassistida e a cirurgia robótica, têm contribuído para uma recuperação mais tranquila em comparação com a cirurgia aberta.
Em média, a internação hospitalar dura cerca de cinco dias. Depois da alta, o paciente retoma gradualmente as atividades, e a recuperação pode permitir o retorno à rotina em aproximadamente um mês, desde que não ocorram complicações.







