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Artigo – Até breve Beatriz..!!!

Por Rogenilson Reis 6 min de leitura

Beatriz, são mais de seis anos de confinação mental, para consumar o objetivo da descoberta desse brutal crime. Seus pais, é que estão presos, e sem acesso a um cobertor que amenize o frio do sofrimento das asperezas do calabouço da prisão psicológica que os mantém imobilizados nessa cela-tumba.

Essa luta é como se fosse uma Carta Testamento a Beatriz, que do cárcere da solidão, escrevem, na esperança de um dia lerem de viva voz, ou do céu, quando puderes discernir e entender o mundo, que possas lê-la e entendê-la, em cada um de seus episódios. Nela, não encontrarás uma só gota de ódio e de amargura. É uma carta de amor, somente de amor, desse amor todo feito de oferta e humildade.

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Ao escrevê-la, pensam em BEATRIZ como uma fonte de consolo, que se juntou à imensa solidariedade dos pernambucanos, de que és, agora, parte integrante.

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Todo esse seu sentimento obstinado, tenaz e incessante de mãe a faz, também, uma vítima da prisão perpétua da saudade. Essa busca gera um estado de consciência diferente de quem caminha por onde quer. Para uma vítima, como é seu caso, mãe, é como se tivesse numa cela, o tempo não se mede por um cronômetro.

Há um relógio dentro dela cujos ponteiros são movidos pelo latejar das veias, o ritmo do coração. Por isso, não se entrega. São lembranças de momentos passados, frases ditas e ouvidas, lembranças de sorrisos, de alegrias, do cabelo, dos vestidos, dos lábios doces e meigos, das travessuras, da falta de segredos, dos risos contagiantes mesmo naquele dia fatal, que se transformou, de repente, de imensa alegria, para incomensurável dor.

Também, lembro-me, da quinta, das sete palavras dita por Jesus, ainda vivo, quando pregado na cruz: “Tenho sede”. João 19.28 e em Hebreus 4.14.15. A sede de Jesus era por água e a sede de sua mãe, Beatriz, é por Justiça.

Vem à minha mente a poesia do pernambucano Manoel Bandeira – Estrela da Manhã – “ Eu quero a estrela da manhã, onde está a estrela da manha”? E Lucinha, na sua epopéia por Justiça, percorrendo todos os biomas do Estado, em sua peregrinação do sertão ao litoral, deixa exalar: “meu amor é tão grande por você, que a vejo hoje como uma estrela, tanto pela manhã, quanto pela tarde, e uma estrela saudosa e serena da noite, que a brisa carrega aos céus e que fugiste das minhas mãos, mas deixou um rastro de luz no azul do espaço”.

Pensando, agora, como advogado, acho que muita gente tem que ir para a cadeia: o ex-aluno do Colégio Auxiliadora que teve sua digital palmar encontrada na cena do crime; o autor do surrupio das imagens do crime; as testemunhas que mentiram; alguém da Diretoria do Colégio pelas omissões; o funcionário público que aceitou dinheiro do colégio, estes, portanto, não podem ser esquecidos nas entranhas de um escândalo nacional inédito na história da criminologia, e a falta de mandados de prisões correspondem a abusos dignos de uma produção de cinema para concorrer ao Oscar da Omissão.

Por isso, se impõe a FEDERALIZAÇÃO DO INQUÉRITO, como única forma de restabelecer a verdadeira justiça, para, com o esmeril da persistência, derrubar o muro da impunidade, até chegar na elucidação do mandante. Ruy Barbosa repetiria mais uma vez que “…de tanto ver crescer a injustiça, o homem chega a desanimar-se da virtude….”

O ex-presidente americano Abraham Lincoln, pronunciou “de que não podemos enganar todos por todo tempo”. Nem o mais desavisado dos pernambucanos, acreditou nos comentários fantasiosos do acusado, sem qualquer viés lógico. “A menina se assustou”, “tava procurando ajuda pra ir embora”.

A entrevista coletiva em Recife do secretario de Defesa Social foi lamentável quando quis fabricar o consenso, dar o caso como resolvido e encerrado. Como se o criminoso tivesse agido sozinho. Ademais, a mãe de Beatriz, naquele dia, foi empurrada por seguranças palacianos pra não assistir a entrevista, a infeliz coletiva da cúpula da segurança, convocada com estardalhaços e pirotecnia, que, ao invés de trazer esclarecimentos, só trouxe mais perguntas e questionamentos, como, por exemplo, por que a amostra do DNA do cabo da faca não estava no banco de dados de perfis genéticos de condenados como manda a Lei, e só foi colocado após a histórica Caminhada de Lucinha Mota, do prof. Sandro e de seus leais companheiros?

Caminhada que foi abraçada com amor por todos os pernambucanos, que exigem a verdade dos fatos. Ainda me referindo à entrevista coletiva em que se anunciou a identificação do criminoso, apenas isso, e como se isso bastasse, sem o contexto que envolve os fatos, como quem mandou matar, quem colaborou, quem deixou entrar e deu cobertura para sair, quem participou, quem manipulou e mudou a cena do crime, quem obstruiu e sabotou a investigação…

Diante de tantas lacunas e vazios da coletiva de imprensa, depois de seis anos de investigação “ bichada”, é possível referir-se à mesma, como se a montanha tivesse parido um rato. Mas, Beatriz deixou uma herança maior, a grande herança, essa que a ferrugem do tempo não acaba: o sentimento de justiça no coração de sua gente.

O general francês, Leclerc, disse que “só se vence na vida quando se é obstinado por uma ideia”. E a obstinação hoje de mais de um milhão de seguidores da mãe da criança é a descoberta do mandante ou dos mandantes do crime. A poetisa Elza Queiroz, expressou no seu livro de Sonetos que “ quando para a vida o ser humano nasce, já tem seu destino todavia traçado, já traz seu fim igualmente marcado e não adianta buscar outra face e é inútil querer fazer o que não foi prescrito pelo Criador”.

O Destino de Lucinha, mãe da pequena Beatriz, Deus já traçou: abraçar a causa dos injustiçados. Beatriz, descanse, como o condor nos Andes, pouse no oceano de tua alma, nas selvas, nas neblinas, no céu ou onde você quiser, que aqui nós vamos acordar a natureza e soprar o tufão da Justiça, nem que a luz tenha que rasgar o relâmpago e a terra tremer. Que a paz e a justiça confortem sua família, amigos e todos que não aceitam outra que não seja a verdade!

Vale do São Francisco,

28 de janeiro de 2022.

Dr. Henrique Rosa

Advogado.

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