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Mãe de filhos mortos por secretário não escreveu carta; entenda o que é fato, o que é boato e como a vítima virou alvo de ataques

Por Rogenilson Reis 6 min de leitura

A tragédia que aconteceu em Itumbiara (GO) e abalou o país, nos últimos dias, ultrapassou os limites do luto e da comoção. Em meio à investigação sobre o assassinato de dois meninos pelo próprio pai, o então secretário de Governo do município, Thales Naves Alves Machado, de 40 anos, uma nova onda de desinformação passou a circular nas redes sociais: uma suposta carta atribuída à mãe das crianças.

O conteúdo, amplamente compartilhado por perfis de fofoca e até reproduzido por veículos de imprensa, apresenta um texto em tom de confissão e arrependimento, no qual a mulher reconheceria “falhas no casamento” e pediria perdão. Não há qualquer confirmação de que essa carta tenha sido escrita por ela. Até o momento, nenhuma autoridade ou familiares confirmaram a autenticidade do texto ou sua autoria.

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Em um cenário de dor extrema, a circulação de uma mensagem não verificada adiciona mais violência à vítima, que, além de perder os filhos, passou a ser responsabilizada publicamente pelo crime cometido pelo ex-companheiro.

A falsa carta que circula
O texto atribuído à mãe diz, entre outros trechos: “Hoje me dirijo a todos com a alma despedaçada por uma dor que palavras não conseguem traduzir. Perdi meus filhos, perdi minha família e uma parte de mim se foi para sempre. Reconheço, diante de todos, que cometi falhas no meu casamento”. A mensagem segue afirmando que “nada pode justificar a tragédia” e termina com um apelo religioso.

Eram casados? Estavam separados?
Essa é uma das perguntas que mais têm circulado nas redes sociais, e também uma das mais distorcidas. Thales e a esposa estavam casados há cerca de 15 anos e tinham dois filhos. Nos dias seguintes ao crime, passaram a circular versões conflitantes sobre o estado da relação.

Em redes sociais, internautas que se apresentam como “amigos próximos” ou “moradores da cidade” passaram a fazer afirmações sobre uma possível separação, traição ou crise conjugal. Até o momento, não há confirmação oficial sobre o status jurídico do casamento. A própria Polícia Civil informou que a motivação do crime ainda não foi oficialmente concluída e que o inquérito segue sob sigilo.

Suposta traição virou combustível de ódio
Um vídeo divulgado por um perfil de fofoca no X (antigo Twitter) ajudou a espalhar a narrativa de que uma suposta traição da mãe teria motivado o crime. A versão ganhou força rapidamente, gerando ataques diretos à mulher.

Em parte dos comentários, perfis identificados com discursos red pill passaram a sustentar que o homem teria agido “movido pela dor”, numa tentativa de deslocar a responsabilidade do agressor para a vítima.

“Filicídio retaliatório”
O médico legista e influenciador Marcelo Rocha comentou o caso nas redes sociais e classificou o crime como “filicídio retaliatório”. “Isso que aconteceu em Itumbiara não foi causado por uma suposta traição, não. Se chama filicídio retaliatório. É uma vingança do homem contra a mulher, uma violência psicológica contra ela, porque ele sabe que ela vai se sentir culpada pelo resto da vida, mesmo não tendo culpa nenhuma.”

Segundo ele, a lógica é punitiva: “Se ele não pode ter ela, ela não pode ter os filhos, que é o que ela mais ama.” Rocha afirma que, em muitos casos semelhantes, os filhos são vistos como extensão do casamento,e o fim da relação é interpretado como perda de controle ou de status.

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Desabafo ao vivo: apresentadora critica ataques à mãe
A jornalista Mariana Távora, apresentadora da TV Brasil Central de Goiás, fez um forte desabafo ao vivo sobre o caso. Segundo ela, informações apuradas indicam que o homem teria traído a esposa cerca de cinco meses antes da tragédia, que ela teria pedido a separação e solicitado que ele deixasse a casa,mas ele não teria aceitado o fim da relação. Esses pontos, no entanto, também não foram oficialmente confirmados pelas autoridades ou familiares.

No ar, Mariana criticou duramente quem passou a culpar a mãe: “Você quer vitimar mais ainda uma mãe que perdeu os dois filhos? Você é extremamente irresponsável e você é uma das pessoas responsáveis pelo ambiente que nós temos hoje de violência contra a mulher.”

E foi além: “É por discursos dessa forma machistas, extremamente machistas, que a gente tá vendo a violência contra a mulher escalonando num nível absurdo.”

A apresentadora também criticou portais que divulgaram imagens de terceiros sem relação confirmada com o caso e condenou a propagação de conteúdos que, segundo ela, ampliam o que chamou de “doença mental” coletiva de culpar a vítima no lugar do agressor.

O que se sabe oficialmente sobre o crime
De acordo com a Polícia Civil de Goiás:

  • Thales atirou contra os dois filhos na casa da família, na noite de quarta-feira (11) e depois tirou a própria vida;
  • O filho mais velho, de 12 anos, morreu após ser socorrido;
  • O mais novo, de 8 anos, passou por cirurgia, ficou internado em estado gravíssimo e morreu dias depois;
  • Não há indícios de participação de terceiros;
  • A motivação ainda está sob investigação.

A corporação informou que a carta deixada por Thales será analisada oficialmente. Até agora, não há confirmação formal de que a motivação tenha sido traição.

Quando a desinformação vira violência
Além da tragédia familiar, o caso escancarou outro problema: a rapidez com que boatos se transformam em “verdades” digitais. A falsa carta atribuída à mãe, as versões não confirmadas sobre traição e os ataques coordenados contra ela revelam um padrão preocupante: a necessidade de encontrar culpa feminina mesmo quando o autor do crime está identificado.

A Polícia Civil segue investigando o caso. Até a conclusão do inquérito, qualquer afirmação categórica sobre motivação ou responsabilidade além do autor do crime é especulação.

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