Taxistas morrem ao volante: exaustão, pressão financeira e estresse preocupam
“O taxista hoje trabalha muito mais para ganhar muito menos. Tem motorista ficando 14, 15 horas na rua para conseguir fechar as contas. Isso vai acabando com a saúde física e mental do trabalhador”, afirma
Trabalhar mais de 12 horas por dia, enfrentar trânsito intenso, dormir pouco, comer mal e ainda lidar com a queda da renda provocada pela concorrência dos motoristas por aplicativo. Essa tem sido a realidade de milhares de taxistas na Bahia e, segundo representantes da categoria, o preço dessa rotina está sendo pago com a própria vida. De janeiro até agora, 32 taxistas morreram vítimas de infarto no estado, um número que vem assustando colegas, familiares e entidades do setor.
Os casos, segundo a Associação Geral dos Taxistas (AGT), têm ocorrido de forma cada vez mais frequente e, em muitos episódios, os profissionais passam mal durante o expediente, dentro dos próprios veículos. Há relatos de motoristas encontrados desacordados no carro, profissionais que sofreram mal súbito enquanto trabalhavam e outros que chegaram a ser socorridos, mas não resistiram.
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Presidente da AGT, Denis Paim afirma que os números podem ser ainda maiores do que os oficialmente contabilizados pela entidade. Segundo ele, os dados são reunidos a partir de relatos de familiares, grupos de comunicação da categoria e acompanhamento direto dos sepultamentos.
“Esses 32 casos são verídicos. A gente recebe as notícias através dos grupos de taxistas, conversa com familiares e acompanha muitos sepultamentos. Alguns morreram dentro do táxi, outros dormiram e não acordaram mais. Tem motorista que passou mal no carro, foi hospitalizado e não voltou mais. E eu acredito que o número real seja ainda maior”, relata.
De acordo com Denis Paim, a categoria enfrenta um cenário de desgaste físico e emocional extremo. Além da hipertensão – um dos principais fatores de risco para infartos – muitos profissionais convivem com obesidade, diabetes, problemas renais, ansiedade e estresse crônico.
“O taxista hoje trabalha muito mais para ganhar muito menos. Tem motorista ficando 14, 15 horas na rua para conseguir fechar as contas. Isso vai acabando com a saúde física e mental do trabalhador”, afirma.
Nos pontos de táxi de Salvador, os relatos se repetem. O taxista Francisco de Assis, de 32 anos, que trabalha na região do Campo Grande, conta que a insegurança e a concorrência diária têm provocado episódios constantes de estresse e palpitação.
“Hoje a gente trabalha muito nervoso. Tem a insegurança, o medo de assalto e ainda a concorrência. Já aconteceu várias vezes de o passageiro abrir a porta do táxi e desistir porque o Uber chegou. Isso deixa a gente muito estressado. Tem hora que dá palpitação mesmo”, relata.
A taxista Alexandre Ribeiro afirma que muitos passageiros ainda acreditam que o táxi sempre será mais caro, mesmo quando a corrida pode sair pelo mesmo valor ou até mais barata.
“O táxi está ali parado, disponível, mas a pessoa fica na frente chamando aplicativo porque acha que vai pagar menos. Muitas vezes o táxi acaba ficando até mais barato, dependendo do horário e da corrida. Só que existe essa ideia de que o aplicativo sempre compensa mais”, afirma.
O cardiologista Cássio Brito explica que profissões submetidas a longas jornadas, estresse contínuo e privação de sono possuem risco cardiovascular elevado. Segundo ele, o organismo responde ao estresse liberando hormônios que aumentam pressão arterial e frequência cardíaca, favorecendo eventos graves.
“O estresse crônico, associado a hipertensão, diabetes, obesidade e sedentarismo, cria um ambiente extremamente perigoso para o coração. Quando o trabalhador permanece muitos anos submetido a essa rotina, sem acompanhamento médico e sem qualidade de vida, o risco de infarto cresce significativamente”, explica.
O especialista destaca ainda que a falta de acompanhamento preventivo agrava a situação. Muitos profissionais só procuram atendimento médico quando já apresentam sintomas mais graves.
“Muitas vezes esses trabalhadores negligenciam sinais importantes como cansaço excessivo, dor no peito, falta de ar e alterações na pressão arterial. A prevenção é fundamental, especialmente para profissionais submetidos a jornadas exaustivas”, alerta Cássio Brito.
A situação tem provocado preocupação dentro da categoria, que cobra políticas públicas voltadas à saúde do trabalhador do transporte. Entre as reivindicações estão campanhas de prevenção cardiovascular, acesso facilitado a exames médicos e ações voltadas à saúde mental.
Enquanto isso, colegas de profissão convivem diariamente com o medo de que novos casos aconteçam. Nos pontos de táxi de Salvador, o assunto virou rotina entre os motoristas, que relatam sensação de insegurança e esgotamento crescente.











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