A ex-companheira do capitão da Polícia Militar, Adler Iuri Tavares, preso na madrugada da última quarta-feira (9), em Juazeiro, no Norte da Bahia, acusado de violência doméstica, falou com exclusividade ao Portal Preto no Branco sobre os anos de violência que afirma ter sofrido durante o relacionamento. Segundo ela, as agressões não se limitaram ao episódio mais recente e envolveram violência física, emocional, sexual e patrimonial.
“12, 13 anos de casamento, foram 12, 13 anos de agressões emocionais, físicas, agressão sexual, agressão patrimonial, e diante de todas essas agressões, eu sempre tive muito medo. A gente se vê dentro de um buraco, não se enxerga dentro desse ciclo de violência.”
Separada há cerca de um ano e meio, a mulher conta que acreditava que o fim da convivência representaria também o fim das agressões e das ameaças.
“Estamos há um ano e meio separados e eu pensei que essas agressões seriam cessadas, pensei que finalmente eu iria estar livre e em paz, como eu estava me sentindo, com a distância dele.”
Ela relata que, naquela madrugada, o ex-companheiro teria invadido sua residência e apontado uma pistola para seu rosto. Diante da situação, ela acionou a Polícia Militar. Segundo seu relato, o capitão teria resistido à prisão e afirmado que não entraria porque era oficial da corporação.
“Ele invadiu minha casa, meteu a pistola no meu olho. Pegou meu rosto e bateu dezenas de vezes de um lado e do outro. Eu olhava para ele e pedia, por favor, ele olhava e não parava. Eu chamei a polícia. Ele resistiu à prisão. Não quis entrar porque alegou que era capitão, mas a polícia me prometeu que isso não ficaria impune.”
A prisão em flagrante, segundo ela, lhe deu uma sensação de alívio e de justiça, após anos de agressões: “Quando eu soube da prisão dele em flagrante me senti bem, sabendo que a justiça estava sendo feita, e não por essa vez, mas por outras vezes que ele me agrediu. Senti um certo alívio aquela dor”.
A decisão judicial que concedeu liberdade ao acusado, com o uso de tornozeleira eletrônica, mudou completamente esse sentimento.
“Hoje, diante da notícia de que ele recebeu a liberdade, na condição de usar a tornozeleira, a sensação é de medo e desesperança. Esse é o cenário que nós mulheres vivemos. Sabemos que a tornozeleira não garante a segurança a mulher e que o feminicídio está aí e crescendo muito. Às vezes as mulheres têm a Medida Protetiva, eles usam a tornozeleira e não obedecem nada disso. Diante dessa decisão judicial estou me sentindo jogada ao vento, porque a patente protege ele, como ele sempre falou. Hoje eu estou me sentindo assim ao ‘léo’, como se todas essas agressões de 12, 13 anos, e a última do dia 9 de setembro, para ele não foi nada, só foi mais uma agressão.”
A mulher afirma que, após o episódio, passou a receber acompanhamento da Patrulha Maria da Penha e apoio de familiares: “A Patrulha Maria da Penha está me dando todo amparo e também estou recebendo amparo de pessoas da família.”
O caso também trouxe uma exposição pública que, segundo ela, aumentou o sofrimento. A vítima relata ainda que precisou lidar não apenas com as consequências físicas e emocionais das agressões, mas também com julgamentos e ataques à sua imagem, inclusive como mulher e mãe.
“Eu fui exposta de todas as formas. Quer mais exposição do que você se entrar numa UPA, com a cara dilacerada e ver colegas de infância limpando seu rosto e chorando junto? Na delegacia, agentes lhe atendendo? E ainda tem quem lhe julgue, lhe ataque e dizendo que a denúncia foi forjada? Além de ser agredida, diminuída, humilhada e pisoteada, ainda tem gente que, diante da mídia, ainda tenta desqualificar minha imagem como mulher, como mãe. Gente que tem atacado minha honra, a de meus filhos. Eu fui agredida, eu fui quase morta, e ainda estão tentando manchar a minha reputação para justificar a atitude dele.”
Ao falar sobre o comportamento que afirma ter presenciado ao longo dos anos, ela descreve o ex-companheiro como uma pessoa que apresentava comportamentos agressivos também em outras situações.
“Ele já tentou agredir a minha mãe, ele vai pra cima mesmo. Ele não tem respeito por ninguém. Acho muito difícil ele mudar, porque isso é a índole dele.”
Entre os relatos mais graves apresentados pela mulher estão lesões que, segundo ela, teriam sido provocadas durante anos de violência.
“O que mais me doeu foi quando eu recebi a Ronda Maria da Penha e tive que relatar todas as agressões que sofri e eu estava ao lado da minha mãe. Ela não sabia de todas as agressões e eu tive que falar tudo. Me senti mal por ela, por ela achar que a filha dela que estava longe, a 600, 800 quilômetros de distância, quando morei em Itaberaba, estava sendo maltratada. Eu já tive o ouvido estourado, o joelho quebrado, quando ele me deu um chute e afundou a lateral. Até hoje sinto fortes dores. Ele me agredia e ele mesmo me levava ao pronto-socorro. E eu era obrigada a dizer que era uma pancada, que eu tinha caído no banheiro.”
Ela contou que a primeira agressão teria ocorrido ainda no início da relação e que, naquele momento, sequer conseguiu revelar ao médico o que realmente havia acontecido.
“Eu nunca prestei queixa. A primeira agressão foi que ele estourou o meu ouvido e uma pessoa da família dele me levou ao médico e mentiu dizendo que tinha entrado água no meu ouvido. O próprio médico chamou ela e disse: ‘você acha que pode enganar um profissional? Isso aqui foi uma agressão. Essa mulher está com o tímpano rompido. Isso foi uma agressão.”
O medo de denunciar, segundo contou, era alimentado por ameaças e pela sensação de que ninguém acreditaria em seu relato.
“Lá em Itaberaba, toda vez que ele me agredia, ele dizia: ‘se você prestar queixa, ninguém vai acreditar. A viatura vai vir, vai lhe ouvir e ninguém vai fazer nada. Se eu lhe matar, eu pego uma arma e disparo contra mim. Então, sempre tiveram essas ameaças, esse controle emocional. Lá nesta cidade eu não tinha ninguém, eu só tinha ele.”
Prisão e soltura
Segundo informações apuradas pelo Portal Preto no Branco, após permanecer custodiado por cerca de dois dias no Batalhão de Choque da Polícia Militar da Bahia, para onde foi encaminhado pela própria corporação, o oficial recebeu autorização judicial para responder ao processo em liberdade. Como medida cautelar, Adler Iuri deverá utilizar tornozeleira eletrônica durante o período em que o processo estiver em andamento.
O capitão é lotado no município de Itaberaba. A Polícia Militar da Bahia instaurou um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para apurar a conduta do oficial.
Redação PNB






