Quase metade dos municípios brasileiros está em alerta ou risco para mosquito da dengue 

Levantamento do Ministério da Saúde aponta índices preocupantes em 49,2% das cidades participantes; pequenos recipientes domésticos concentram 42,3% dos criadouros 

Quase metade dos municípios brasileiros que participaram de um levantamento do Ministério da Saúde apresenta índices de alerta ou risco para a presença do Aedes aegypti, mosquito transmissor da dengue, chikungunya e zika. Dos 3.732 municípios que enviaram informações ao governo federal, 49,2% estão nessa situação. Os dados, divulgados nesta semana, chamam a atenção para a necessidade de intensificar a prevenção antes da chegada do verão, período em que o aumento das temperaturas e das chuvas favorece a reprodução do mosquito. 

O levantamento, realizado entre maio e agosto, também mostra que boa parte dos criadouros está dentro ou ao redor das residências. Vasos e pratos de plantas, garrafas e pequenos recipientes representam 42,3% dos focos identificados. Reservatórios de água, como caixas-d’água e tonéis, respondem por 26,1%, enquanto pneus e resíduos sólidos concentram outros 23%. 

Para Camila Alvim, professora do curso de Biomedicina da Estácio, os números mostram que objetos comuns do dia a dia podem contribuir para a proliferação do mosquito. Segundo ela, mesmo pequenas quantidades de água acumulada são suficientes para permitir o desenvolvimento das larvas. 

“Não é preciso haver grandes reservatórios de água para que o mosquito se reproduza. Um recipiente esquecido no quintal, um prato de planta ou até uma tampa de garrafa podem oferecer condições para o desenvolvimento das larvas. Por isso, a prevenção começa com a observação dos espaços que utilizamos diariamente”, explica. 

A preocupação aumenta com a aproximação do verão e a possibilidade de alterações climáticas associadas ao El Niño. Temperaturas mais elevadas e mudanças no regime de chuvas podem criar condições favoráveis à reprodução do mosquito, embora não sejam os únicos fatores responsáveis pela transmissão das doenças. 

A médica infectologista e pediatra Sílvia Nunes Szente Fonseca, professora de Medicina do IDOMED (Instituto de Educação Médica), explica que a circulação dos vírus e a imunidade da população também influenciam o comportamento epidemiológico da dengue. 

“O aumento da dengue não pode ser atribuído a um único fator. A transmissão depende da presença do mosquito, da circulação dos vírus, da imunidade da população e das condições ambientais. No entanto, temperaturas mais elevadas e mudanças no regime de chuvas podem favorecer o vetor”, afirma. 

Outro desafio para o controle do Aedes aegypti é a resistência dos ovos, que conseguem permanecer viáveis por longos períodos mesmo quando os recipientes estão secos. Com o retorno da água, eles podem eclodir e dar origem a novas larvas, mantendo o ciclo de reprodução. 

Camila alerta que apenas esvaziar os recipientes não é suficiente para eliminar esse risco. “Os ovos podem ficar aderidos às paredes dos objetos, mesmo depois que a água é retirada. É importante lavar e esfregar essas superfícies para removê-los. Um recipiente aparentemente seco pode voltar a se tornar um criadouro quando recebe água novamente”, orienta. 

No Sudeste, assim como nas regiões Sul e Centro-Oeste, os recipientes domésticos aparecem entre os principais locais de reprodução identificados pelo levantamento. Entre as recomendações estão manter caixas-d’água bem vedadas, limpar calhas e ralos, retirar pratos de vasos de plantas, guardar baldes virados para baixo e eliminar objetos que possam acumular água. Bebedouros de animais também devem ser higienizados regularmente com água, sabão e esponja. 

Redução dos casos não elimina risco 

Apesar dos índices de infestação, o Brasil registra uma queda expressiva nos casos de dengue em 2026. Até 26 de setembro, foram contabilizados aproximadamente 470,5 mil casos prováveis, contra cerca de 1,5 milhão no mesmo período do ano passado, uma redução próxima de 70%. Também houve diminuição nos registros de chikungunya, de 43%, e de zika, de 35%. 

Para Sílvia, a redução das notificações não deve ser interpretada como sinal de que a população pode diminuir os cuidados. A especialista lembra que a dengue pode evoluir para quadros graves e que reconhecer os sintomas é fundamental para buscar atendimento no momento adequado. 

Febre alta, dor de cabeça, dor atrás dos olhos, dores musculares, enjoos e manchas vermelhas na pele estão entre as manifestações mais comuns. Pessoas com suspeita da doença devem procurar atendimento médico e evitar a automedicação, especialmente com medicamentos que possam aumentar o risco de sangramentos. Dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramentos e tontura são sinais de alerta que exigem avaliação imediata. 

“Combater os criadouros agora reduz as condições para uma proliferação maior do mosquito quando o calor e as chuvas aumentarem. A prevenção precisa começar antes do crescimento dos casos”, ressalta a infectologista. 

Camila reforça que o combate ao mosquito depende da participação de toda a comunidade, já que os focos podem estar distribuídos por diferentes imóveis de uma mesma vizinhança. 

“A prevenção não deve acontecer apenas quando os casos aumentam. Cada recipiente eliminado representa uma oportunidade a menos para o mosquito se reproduzir. É um cuidado simples, mas que precisa ser contínuo e compartilhado por todos”, conclui a professora da Estácio. 

Post Author: Editor Vale Comentar

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